Recomendação: Os Maiores Clássicos do Demolidor


Frank Miller é um nome emblemático dos quadrinhos norte-americanos, particularmente os de super-heróis. Neste sentido, ainda que certamente constitua um exagero afirmar que esse gênero das histórias em quadrinhos venha a ter a obra de Miller como um grande divisor de águas - afirmando-se, por exemplo, que a história dos super-heróis quadrinhísticos divide-se em antes e depois  dele, como fazem alguns fãs mais entusiasmados do autor -, sua contribuição com certeza não é absolutamente desprezível. Pelo contrário, até. Não se pode falar em super-heróis nos quadrinhos sem mencioná-lo.

A convivência de Frank Miller com as revistas de histórias em quadrinhos data já de mais de um quarto de século, tendo se iniciado na segunda metade dos anos 70, imediatamente após sua chegada a Nova Iorque, proveniente de Montpelier, Vermont, onde havia crescido. Seu primeiro trabalho para uma editora maior foi na revista Twilight zone, da Gold Key, mas ele sequer recebia crédito nessa publicação. Após uma rápida excursão pela DC Comics, desenhando para a revista Weird war tales, ele ingressou na Marvel Comics, desenhando John Carter, Warlord of Mars 18.

Seu traço passou despercebido, inicialmente. Apenas após ter desenhados os números 27 e 28 da revista Peter Parker, the spectacular Spider-Man  é que foi notado pelo então editor-chefe Jim Shooter, que o chamou para substituir Gene Colan nos desenhos de Daredevil (Demolidor), a partir do número 158, em maio de 1979. Assim, durante vários meses, Miller ilustrou as histórias escritas por Roger McKenzie, mas logo começou também a atuar nos roteiros, juntamente com o roteirista principal, até que assumiu completamente a confecção da história e dos desenhos da revista, a partir do número 168, em dezembro de 1980. Aí começou a grande virada do Homem sem Medo, cuja revista estava correndo o risco de cancelamento. Com Miller, afastou-se este perigo e um novo alento foi trazido à personagem. A partir de então, o autor nunca mais pararia de impressionar os leitores, não apenas por seu trabalho no Demolidor, mas também por várias outras intervenções decisivas no gênero de super-heróis, principalmente pelo sua atuação à frente de O Cavaleiro das Trevas, e, posteriormente, pelas incursões em outros gêneros, em Sin City, Martha Washington, Hard Boiled, 300 de Esparta, etc.

Os primeiros esforços de Frank Miller atuando à frente do Demolidor ao mesmo tempo como roteirista e desenhista, com arte final de Klaus Janson, constituem um capítulo à parte na trajetória desse artista. Nesse período, Miller firmou-se enquanto um grande contador de histórias, assombrando o público com suas inovadoras técnicas narrativas, a dinâmica de seus quadrinhos e suas inventivas soluções gráficas. Seus roteiros secos, violentos mesmos, sua interpretação do super-herói como um homem confuso, às vezes com tendências fascistas, e sua exploração do aspecto esquizofrênico da personalidade de Matt Murdock/Demolidor, trouxeram uma inegável renovação ao gênero, criando um modelo que rapidamente seria seguido por muitos outros e trazendo-lhe um grau de maturidade antes impensável. E isto tudo já se pode vislumbrar de forma bastante concreta nas histórias que vão do número 168 a 173 da revista Daredevil, exatamente as que são agora reunidos, como coletânea, no especial Os maiores clássicos do Demolidor: Frank Miller, publicado pela Panini Comics.

Esta revista é, sem dúvida, uma oportunidade especial para rever os primeiros passos de Frank Miller à frente de algumas das personagens mais interessantes da Marvel Comics, desde o herói à ninja-assassina-amante-e-inimiga Elektra, passando por vilões emblemáticos como o Mercenário e o Rei, numa série de histórias que foram publicadas no país há mais de 20 anos, nos números 6 a 10 da revista Superaventuras Marvel, da Editora Abril.

Não se trata apenas de uma reedição de uma obra já publicado anteriormente. Ao contrário, a nova edição, traz as histórias em seu formato original de publicação, o que permite a reprodução exata dos quadrinhos, legendas e balões. Além disso, ela foi novamente traduzida por Jotapê Martins, hoje vinte anos mais velho - e, imagina-se, também mais sábio... -, que revitalizou e atualizou vários diálogos, algumas vezes, inclusive, corrigindo decisões não muito felizes tomadas na década de 80, e trazendo às mãos do leitor um produto muito mais vivo e pulsante do que a simples reedição da tradução anterior poderia representar. Isto pode ser facilmente verificado na simples comparação dos títulos escolhidos para algumas das histórias, então e agora:

O jogo do poder (SAM8) - O Rei deve morrer (MCD) - The Kingpin must die
(DD);
O Rei deve morrer (SAM9) - Nas garras do Rei (MCD) - In the Kingpin´s clutches (DD);
A volta (SAM9) - Guerra de gangues (MCD) - Gang war (DD); e
Mistério sem nome (SAM10) - O terror das mulheres (MCD) - Lady killer (DD)
À exceção, talvez, da dubiedade da tradução escolhida para o título da última história - título semelhante já foi utilizado em português para uma conhecidíssima comédia cinematográfica estrelada por Jerry Lewis (The ladies’ man, de 1961), tornando quase impossível a algum leitor deixar de ter sua expectativa comprometida por esse conhecimento... -, parece evidente o aprimoramento da tradução na edição da Panini. E o valor agregado à obra fica ainda mais palpável quando se comparam as páginas das histórias publicadas no início da década de 80 com aquelas que são agora disponibilizadas ao público na edição atual. Isto, para não mencionarmos a qualidade do papel, das cores, da impressão, etc.

Sem dúvida, Os Maiores Clássicos do Demolidor: Frank Miller é uma publicação que merece fazer parte da estante de qualquer amante das histórias em quadrinhos, principalmente daqueles que admiram a obra de Miller e o querem ver recebendo o tratamento merecido nas edições brasileiras.


Share this

Related Posts

Previous
Next Post »