A psicologia nos filmes de Christopher Nolan - Parte 1


1. AS semelhanças com Frank Miller e Alan Moore

A fórmula usada por Nolan na trilogia The Dark Knight fez sucesso com o público geral. Com o ótimo Batman Begins e o exímio Cavaleiro das Trevas, ele conseguiu fazer o seu modo de tratar o universo do Batman servir de inspiração pra filmes que viriam depois. Nessa leva, pode-se incluir o mediano O Espetacular Homem Aranha e o polêmico, porém ao meu ver excelente O Homem de Aço.   
   Apesar de Bryan Singer, já no seu primeiro filme dos X-men ter tirado o colante amarelo, o realismo que Nolan impregna em seu dois primeiros filmes nunca tinham sido antes explorados.Não se baseiam apenas em figurinos ou romances. Se o objetivo de Nolan era fazer com que nos importássemos com Bruce da mesma forma que com Batman, é correto afirmar que ele conseguiu. Desde o começo de Batman Begins (2005) o simbolismo empregado ao medo e ao próprio morcego estão mais que presentes. Bruce apresenta uma apatia ao animal por ter tido uma experiência ruim quando criança, e de cara, notamos o primeiro fator do realismo de Nolan. A humanização de um personagem tão "perfeito". 
   Batman Begins pode não ser uma obra que leva o mesmo nome ou os mesmo conceitos, mas tem relação similar e direta com Ano Um e Cavaleiro das Trevas, ambos de Frank Miller, como visto nos trechos abaixo : 

Então algo se move. Oculto... algo que suga o ar viciado e sibila. Planando com graça milenar ele não se afasta como seus outros irmãos. De olhos radiantes, intocados pela alegria ou tristeza... seu hálito é quente e tem o sabor de inimigos vencidos... O odor de coisas mortas, coisas condenadas. Com certeza, ele é o mais feroz sobrevivente... O mais puro guerreiro... brilhando, odiando... tomando o meu ser. Sonhando... Eu tinha seis anos quando isso aconteceu... Quando encontrei a caverna... Imensa, vazia, silenciosa como uma Igreja... Sequiosa como o morcego. (MILLER, 1986)

Na passagem acima, o jovem Bruce Wayne brinca nas dependências de sua mansão quando cai em um buraco, onde é atacado por morcegos. Isso, sem dúvidas remete a primeira sequência do filme. Quando brincando com Rachel, Bruce sofre a mesma queda. Outro trecho que mostra a escolha de Bruce pelo simbolo está na obra que viria um ano depois. Porém, no gibi, o morcego aparece de forma inusitada :

Como pai? Como devo agir? (...) Eu tenho uma fortuna. A mansão da família está sobre uma caverna... que daria um perfeito quartel general... tenho até um mordomo com treinamento em medicina de guerra... Sim pai, eu tenho tudo... menos paciência (...) Já esperei dezoito anos... dezoito anos desde... Desde Zorro. A Marca do Zorro. Desde aquela caminhada à noite. Desde o homem com olhar vazio e assustado... de voz áspera como vidro se partindo... Desde que minha vida perdeu o sentido. Sem o menor aviso, ele surge... estilhaçando a janela do seu estúdio, agora meu. Já vi esta criatura antes... em algum lugar. Ela me aterrorizou quando criança... me aterrorizou... Sim, pai. Eu me tornarei um morcego. (MILLER, 1987)
A justificativa que ajuda na afirmação do trauma sofrido na infância, também se encontra em Batman Begins. Quando perguntado por Alfred o por quê da escolha, Bruce responde : “Morcegos me assustam. Meus inimigos vão partilhar desse pavor”. Ou seja, causar medo na mesma medida em que possui medo.
    Note que tanto o filme quando o quadrinho, não trabalham com o Batman. Mas sim com Bruce. Nolan disse em uma entrevista na época de Batman Begins que se você se importa apenas com o herói mascarado, não gosta de verdade do personagem. Outro fator a ser citado é a inquebrável moralidade que recai sobre o Batman. Não matar é a única regra. Apesar de que a punição terminaria o histórico criminoso do indivíduo, mas tornaria Batman apenas um homem, como Bruce deixa claro que não quer.
    Esta regra máxima será motivo de muitas discussões, as quais são encontradas em muitas das HQs de Batman. Ela será a incorruptibilidade moral do Morcego, seu não ultrapassar o limite, sua garantia de conseguir conter as forças caóticas da desordem em busca da paz, da justiça e do bem comum. Contudo, será, paradoxalmente, seu ponto mais fraco, sua vulnerabilidade, seu Calcanhar de Aquiles com relação aos que ama. Pois sem esta regra, Batman poderia ter evitado muitas mortes causadas por seu principal antípoda, que não hesita em atacar seu ponto de vulnerabilidade de maneira sádica e cruel: O Coringa.
 




Esta “audácia” das raças nobres, a maneira louca, absurda, repentina como se manifesta o elemento incalculável, improvável, de suas empresas (...), sua indiferença e seu desprezo por segurança, corpo, vida, bem-estar, sua terrível jovialidade e intensidade do prazer no destruir, nas volúpias da vitória e da crueldade.  
                                                                                                                     Nietzsche



O Coringa foi inventado pelos mesmos criadores de Batman, Bob Kane e Bill Finger, em parceria com Jerry Robinson. A pretensão era criar um vilão para Batman, e Kane se inspirou no personagem do ator Conrad Veidt no filme “O Homem Que Ri” 12 de 1928. Robinson contribuiu com o personagem inspirando-se em sua paixão por cartas de baralho 13(MANN, 2003).
   Sua origem, como personagem do universo de Batman, é contada em Detective Comics #168 de Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson (1951), em A Piada Mortal de Alan Moore (1988) e no filme Batman de Tim Burton (1989).
   A primeira obra não dá importância ao passado do Coringa, apenas o apresenta como um criminoso chamado “Capuz Vermelho” que assalta uma fábrica de baralhos eem uma luta contra o Batman, acaba caindo em um tanque que contém uma mistura química. Ele mesmo diz: “O vapor químico... tornou meu cabelo verde, meus lábios, vermelho carmim... e minha pele, esbranquiçada! Pareço um palhaço do mal! Que piada infame!”. E segue: “Concluí que minha face poderia aterrorizar as pessoas! E por causa da fábrica de baralhos e à carta que tem a face de um palhaço, decidi me autodenominar o Coringa” (KANE, 1951).
    Na segunda obra, Allan Moore apresenta um comediante frustrado que não consegue emprego e sofre por ser fraco e não ter como sustentar a esposa que está esperando um filho. No desespero, se une com bandidos para assaltar a fábrica de baralhos vestido como o Capuz Vermelho. Na manhã do assalto, ele recebe a notícia que sua esposa, ao tentar testar um aquecedor de mamadeiras, provoca um curto circuito e acaba morrendo. Mesmo abatido com o acontecimento ele vai para a fábrica. Lá encontra a polícia e o Batman. Cai no tanque químico e depois de ser levado pela correnteza até as margens de um rio, observa seu reflexo na água. Vendo o rosto modificado, senta-se ponderante e cabisbaixo. Minutos depois, levanta-se e começa a rir compulsivamente a ponto de gargalhar.
   Na versão cinematográfica de Tim Burton, o Coringa é Jack Napier, um bandido braço direito do chefão do crime de Gotham. Diferentemente da versão anterior, o personagem já possui predisposição forte e habilidosa para o crime. A queda no tanque de líquido químico, sob as mesmas circunstâncias das versões anteriores, é apenas um catalisador para uma independência com relação à máfia: ele, agora, trabalha por conta própria e se dá o trabalho de fazer do crime um instrumento para sua “nova filosofia”,
   Em 2005, Ed Brubaker viria a escrever O Homem que Ri. Uma reinterpretação da origem do Coringa a partir de Piada Mortal e Batman #1 de 1940. Na história de Brubaker, Batman tenta definir o Coringa : 

 Quando caiu no tanque de resíduos químicos, ele estava no lugar errado pelo motivo errado, mas ainda assim culpa Gotham. (...) Em sua mente doentia somos culpados apenas por estarmos vivos. Agora entendo tudo. Sua fúria e seu ódio paranóico. Ele pode ser um gênio, mas ódio é tudo que conhece. (BRUBAKER, 2005)



Ainda vislumbrando o fator cruel nas ações do Coringa, na HQ Morte em Família, o roteirista Jim Starlin (1988), mostra a morte do segundo Robin18, Jason Todd, pelas mãos do Coringa. O Palhaço do Crime surra o garoto com um pé de cabra: “Prepare-se para uma sova bem sovada, garoto. Mas me deixe dizer logo de cara... isso vai doer mais em você do que em mim” (STARLIN, 1988). As cenas em banda desenhada mostram uma sequência de golpes realizados por um Coringa aos risos de alegria e satisfação, na presença da mãe do garoto. Em seguida, prepara uma bomba relógio que explode, matando Jason Todd e sua mãe juntos. Momentos depois, Batman carrega nos braços o corpo deformado de seu pupilo.
   Outro fator importante no personagem, ligado à crueldade e ao escárnio, é o dilema. Entendido aqui como: “situação embaraçosa com duas soluções difíceis ou penosas” 19. Em Batman, O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan (2008), são apresentados quatro casos de dilemas efetuados pelo Coringa. Os dois primeiros são direcionados especialmente ao Batman, os outros dois, são dirigidos aos cidadãos de Gotham.
   Trata-se de colocar em pauta uma tragédia iminente, na qual a decisão no agir depende, em primeira ordem, de um indivíduo e em segunda ordem, de uma comunidade: escolhas que tem proporções coletivas. O Coringa quer que tanto Batman, juntamente com as autoridades de segurança, quanto a cidade participem do que ele chama de “jogo”.
    Neste filme, o diretor Christopher Nolan não apresenta a cena da queda no tanque de líquido químico que provocou a brancura na pele, o avermelhamento dos lábios, os cabelos verdes e a contração na face em um sorriso constante, o que seria convencional. Aqui, o Coringa mesmo pinta os cabelos de verde, usa maquiagem no rosto e rasga as bochechas em formato de sorriso. E de fato, o produto químico, nas versões anteriores, funciona apenas como explicação para o rosto de palhaço.
    Ter o rosto de palhaço simboliza sua postura diante da vida: a saber, diante da tragédia da vida que mesmo sendo cruel e sem sentido, merece um sorriso. Ao se referir às cicatrizes em seu rosto, no formato de um sorriso, ele explica:

Meu pai era um bêbado e um viciado. Certa noite, ele fica mais louco que de costume. Mamãe pega a faca de cozinha para se defender. Ele não gosta disso... nem um pouco. Então, comigo assistindo, ele enfia a faca nela, rindo enquanto faz isso. Ele se vira pra mim e diz: “porque tão sério?”. Ele vem até mim com a faca: “Porque tão sério?”. Enfia a lâmina na minha boca: “Vamos colocar um sorriso neste rosto”. 

Em outra ocasião, ainda no filme, ele conta sobre suas cicatrizes:

Eu tinha uma esposa. Ela era linda. (…) Me dizia que eu me preocupava demais. Me dizia que eu tinha que sorrir mais. Ela jogava e se envolveu até o pescoço com agiotas. Um dia retalharam o rosto dela. E não tínhamos dinheiro para cirurgias. Ela não agüenta! Eu só queria vê-la sorrindo outra vez. Eu só queria que ela soubesse que eu não me preocupo com as cicatrizes. Então... eu enfio uma navalha na minha boca e faço isso comigo mesmo. E sabe o que acontece? Ela não agüenta olhar pra mim. Ela vai embora! Agora eu vejo o lado engraçado: agora eu estou sempre sorrindo! 

Essas duas explicações trágicas corroboram com a versão de Alan Moore, em “A Piada Mortal”, na qual sua esposa grávida morre em um acidente doméstico tolo. Corroboram no sentido de expressarem exemplos comuns que acontecem nos dias atuais: maus tratos a criança, violência contra a mulher, alcoolismo, vício em jogos, abandono, falta de emprego, fracasso profissional, acidente doméstico. São exemplos que causam repulsa, náuseas. E o Coringa pôde superá-los e o demonstra por meio do riso.
   Essa postura de deboche perante o trágico e suas investidas para criar situações de dilema mostram as pretensões do Coringa em causar caos a partir do medo, deixando as pessoas vulneráveis e pressionadas a tomarem uma decisão difícil ou simplesmente por diversão. Por mais que sejam situações estratégicas, elas estão longe de serem planejamentos comuns de controle e segurança: é justamente contra o controle, segurança, bem-estar, conservação e estabelecimento que o Coringa opera. Ele se define bem:
   Eu realmente pareço um cara com planos? Sabe o que eu sou? Eu sou um cachorro correndo atrás de carros. Eu não saberia o que fazer se eu pegasse um. (...) Eu apenas faço coisas! A mafia tem planos. Os policiais tem planos. Gordon tem planos. Eles são esquematizadores. Esquematizadores tentando controlar seus mundinhos. Eu não sou um esquematizador. Eu tento mostrar aos esquematizadores o quanto suas tentativas de controlar as coisas realmente são patéticas.

O fator simplório e patético dos planejamentos de controle são motivos de zombaria para o Coringa. Ele se diverte com eles. Tudo que é ordenado, regrado e estabelecido, motiva o personagem a impor uma contrapartida. Ele continua:
    Olha o que eu fiz a esta cidade com uns barris de gasolina e algumas balas. Sabe o que eu percebi? Ninguém entra em pânico quando as coisas vão de „acordo com os planos‟. Mesmo que o plano seja terrível. Se amanhã eu digo à imprensa que um arruaceiro vai levar um tiro, ou um caminhão de soldados vai ser explodido... ninguém entra em pânico. Porque isso tudo faz parte do plano. Mas quando eu digo que um velho prefeitinho vai morrer... então todo mundo perde a cabeça. Introduza uma pequena anarquia. Perturbe a ordem estabelecida… e tudo se torna caos. Eu sou um agente do caos. E sabe uma coisa a respeito do caos? Ele é justo.
A justiça no próprio caos: conceber a desordem como justa, cabível, algo dado. Trata-se de uma força desregrada, sem limites, despreocupada. Tal concepção vai de choque à concepção de justiça do restante da sociedade que investe defensivamente ou com inibição: com força reativa. Portanto, o esforço das delegações de segurança do Estado (Gotham), que possuem a função de ordenar o desordenado, entram no “jogo” do Coringa como força de inibição e escudo de defesa que atingem seu grau máximo de força contrária e estabelecedora da ordem, na pessoa do Batman.



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