Supermen: Uma análise das interpretações modernas do personagem - Parte 1




Desde 2013 quando O Homem de Aço foi lançado nos cinemas, o mundo se divide entre pessoas que gostaram e não gostaram do filme. De fato, parece que quando se trata da DC não tem um meio termo definido. Ou você ama, ou você simplesmente odeia. Mas apesar da minha opinião quanto ao filme ser bem íntima e não muito bem definida - apesar de gostar - eu tenho meus problemas com ele também. Se você achar que os problemas são com a paleta de cores, vai estar extremamente enganado e eu vou querer acertar sua cara com uma bateria de carro, mas se você pensou que os problemas são com o roteiro, parabéns, você acertou.

Enquanto as minhas opiniões acerca do filme vão ficar pra uma crítica que pretendo publicar em breve, quero usar esse texto para mostrar a algumas pessoas que elas não entendem o que pensam entender. Quero dizer que apesar de muito fã e admirador, essa peça não se trata de uma articulação defensiva dedicada ao Zack, mas sim um ataque aos "fãs" do Superman que de repente brotaram pós-Homem de Aço.

Lá em 1978 quando o primeiro filme do herói estrelando Christopher Reeve saiu, os tempos eram mais simples. O fim da década de 70 por incrível que pareça ainda era leve e não tinha tanto cinismo quanto a década de 80 viria a ter. Então não foi difícil fazer um filme fiel. O Superman, criado a exatamente 40 anos naquela época, sempre havia sido um símbolo de esperança, de força e de certa forma, de soluções milagrosas. O que isso significava poderia variar de cada um, mas se fosse pra eu chutar, diria que era um ideal. Às vezes paro e penso no que as pessoas pensavam quando o filme saiu. Imagino as crianças sonhando com algo parecido com aquilo realmente acontecendo e com outras pessoas pensando "Se o Superman fosse real, ele com certeza impediria isso". Tempos simples esses. Tempos em que os Estados Unidos cada vez mais cresciam como potência mundial e a visão americana era sempre tão egoísta. Mas espera, é egoísmo fazer o que é certo? Afinal, esse certo é certo pra quem?

Saindo um pouco dos filmes, pelo menos por enquanto, vamos analisar o Superman em fases. A maioria com certeza gosta de chamar de pré e pós-crise, mas eu vou chamar apenas de pós-John Byrne. Caso você leitor não conheça a expressão ou o significado dela, te darei uma definição rápida, mas recomendo que pesquise mais sobre depois, no Google sempre tem tudo mesmo. A crise em questão é a Crise das Infinitas Terras de 1986, saga que colocou a DC Comics no caminho certo quando tudo tava uma bagunça. Pra ficar mais fácil, pense assim: A editora era tipo o Mark Zuckerberg, não podia ver nenhum herói criado por uma editora menor que já ia comprando (A Whiz Comics que o diga). Então a DC decidiu criar um evento para acabar com a bagunça de universos paralelos e histórias fantasmas, assim, unindo várias coisas e acabando com várias outras. O evento foi a crise.

Voltando ao Superman, logo após a Crise, a DC resolveu chamar alguns criadores pra recontar a história de seus principais heróis. O responsável por essa ideia foi o querido Julius Schwartz, editor na época que trouxe nomes como Lein Wein, Alan Moore e ainda colocou nomes como Denny O'Neil e Neil Adams pra trabalhar em personagens recém definidos/criados. Isso resultou em uma fase espetacular de Arqueiro Verde e Lanterna Verde. O escolhido pra trabalhar e reinventar o Homem de Aço foi John Byrne, que, com esse mesmo subtítulo criou alguns dos melhores conceitos para o Superman. Caso não saibam, amiguinhos "fãs" até Byrne, Lex Luthor não era um homem de negócios tão inescrupuloso quanto vocês amam ressaltar hoje. Mas isso aqui não é pelo Lex e muito menos pela fase em si. Isso aqui é só pra marcar o começo da separação de duas ideias.

Superman. O maior herói de todos os tempos. Primeiro herói da história dos gibis. Provavelmente, quando você lê isso, lembra-se do bebê que foi mandado pra Terra num foguete por quê seu planeta ia explodir. Chegou aqui e boom, tava lá, voando pelos céus e fugindo de balas. Um cara destemido que sempre faz o certo pras pessoas, sempre salva todo mundo. O sr. perfeição. Sem falhas. Afinal, como alguém criado por fazendeiros bondosos, pessoas simples e de bom coração, pessoas humanas, como alguém assim poderia cometer erros tão... tão... tão humanos.

Pois é, impossível né. Mas voltando a uma coisa que eu disse uns parágrafos acima, afinal de contas: o que é certo e isso é certo pra quem?


Lá em O Homem de Aço, Snyder trouxe uma visão um pouco diferente pro Superman. Diferente pra alguns pelo menos. No cinema, o herói sempre fora o ideal do iluminismo. Sempre. Nunca antes disso, tivemos um Superman com conflitos tanto internos quanto externos. Clark Joseph Kent ou Kal-El nunca pediu pra ter os poderes que tem. Ele foi mandado pra cá pra ser salvo. E foi criado por nós. Imaginem sempre ter que tomar uma decisão. Ouvir todas as pessoas do mundo pedirem a sua ajuda e mesmo que você possa ajudar elas separadamente com seus dons, ainda não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Pense que enquanto você apaga um incêndio no seu país, tem alguém gritando pela sua ajuda enquanto se afoga. E você escuta isso. Não queria e nem pediu pra escutar, mas você escuta. E não pode fazer nada. Porque uma decisão sua pode matar mais do que uma que teoricamente, poderia salvar.

E tentem pensar em como mesmo salvando algumas vidas, você não pode salvar todas e como essas falhas machucam as pessoas. A morte é chocante. Ninguém quer ver o corpo de uma criança machucada por uma guerra ou por abuso de um maníaco. Você que tá lendo esse texto, tente se lembrar se já ouve alguma situação que a impotência tomou conta de você. Já viu alguém batendo em uma mulher e não fez nada por que não podia? Já viu alguém batendo numa criança sem dó e não fez nada por que achava que não era da sua conta? Imagine ouvir isso no mundo inteiro e tomar a decisão de fazer o que você julga certo, mas o que você julga certo é errado pros outros. E você se sente cada vez mais perdido já que não é um deles. Será que com esses dons, essa dádiva de poder, você deveria mudar o mundo? Sabemos que precisa mudar. Sabemos que as mortes, a intolerância e o preconceito tem que acabar, mas o que eu e você fazemos pra mudar isso? 

A maior característica do ser humano é o erro. Sempre usamos isso pra nos defendermos de algumas acusações. E agora quero lembrar vocês que o Superman não é só Super. Ele também é homem. Em Superman #78, lá da década de 80 passando pra década de 90, Dan Jurgens escreveu uma edição onde um jovem mandava uma carta ao Superman pedindo para que ele, o ser mais poderoso do       planeta, salvasse seu pai, que jazia em uma cama sofrendo de tumor no cérebro. O problema é que a carta demorou um certo tempo pra chegar e quando chegou, Clark já não poderia fazer nada. O garoto então recusa as desculpas do Superman, dizendo que ele era uma fraude. Ele era... como posso dizer, um falso Deus. Apesar de chocado, Kal sabia que não poderia fazer nada mesmo que quisesse, pois o tumor do pai do garoto já havia atingido um estado crítico.

Vocês conseguem entender o peso disso? Caso a resposta seja não, eu te ajudo: O SUPERMAN NÃO É A PORRA DO DOUTOR MANHATTAN :D



Antes de você pagar de otário na internet e sair por aí dizendo "Hack Snyder não entende hurr durr" tenta conhecer a síntese do personagem. A essência dele. Não adianta ver todos os filmes do Christopher Reeve, ou o filme do Bryan Singer e achar que ja é o sabe tudo. Igual o numero de pessoas que criticaram o Lex sem ter lido O Legado das Estrelas (do gênio Mark Waid). Cara, tá transposto. Não tem o que pensar sobre. É a mesma escrita pro mesmo personagem. Pelamor né...

O Superman é SIM um símbolo de esperança. Ele é SIM um símbolo de que nós podemos ser e fazer algo maior que nosso próprio ego. Mas ele também teve suas dúvidas antes de ser isso. Também se perguntou o que deveria fazer. Ninguém ta livre dos fardos da vida. Nem o maior herói de todos os tempos. Precisamos entender que com o passar dos tempos a personalidade dele vai cada dia mais se aproximar daquele personagem que eu e você tanto amamos. E pra ser muito sincero com vocês, o Snyder foi um dos grandes responsáveis por eu me apaixonar outra vez pelo personagem e pelo que ele significa. Fiquem calmos, a hora do garoto simples e bondoso vai chegar, mas enquanto isso ele precisa aprender que ele e só ele, pode se tornar o maior exemplo de que tempos melhores estão por vir.  

Nos próximo textos: Uma análise do EXCELENTE Superman do universo de Supergirl e como esse personagem tem voltado a ser parte essencial da cultura pop atual.

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